Podcast ao Cubo

Perspectivas sobre Chris McCandless em “Na Natureza Selvagem”

É necessário o confronto entre os pontos principais da vida de Chris McCandless como ponto de partida que devemos ter para entender a vida dele e começar as várias perspectivas. Vamos explorar, em um esforço coletivo, sua vida para descobrir informações valiosas. Farei uma conjunção do filme com o livro que deu origem ao mesmo.

A pergunta que tentaremos responder é simultaneamente simples e complexa: Por que Chris McCandless foi para a natureza selvagem? Esse questionamento e talvez das possíveis respostas chegamos a outros pontos importantes: Por que é difícil analisar sem julgar? O que nos leva a estar incomodados, curiosos e/ou críticos a vida dele? Responder o porquê que ele foi para a natureza selvagem é simples, já que sempre colocamos nossas emoções antes da ação de julgar. E ao fazer isso, talvez, estejamos na verdade nos mostrando. Jon Krakauer, jornalista e autor do livro “Na Natureza Selvagem”, compartilha em um capítulo por completo, o oitavo, a quantidade de cartas e o teor delas que recebeu de várias pessoas depois da publicação de um artigo para a revista Outside. Chris sempre instigou as pessoas, fazendo com que a revista recebesse cartas mesmo depois de semanas e meses a partir da publicação do artigo.

Chris e sua história só abrem espaço para a binária interpretação de seus atos: ou você sente o que ele sentiu e dessa forma pensa de forma empática ao ser humano ou você simplesmente escolhe adjetivos carregados de preconceitos e o preenche com eles. Sean Pean, diretor do filme, é bem mais enfático: “you are with or not with Chris [ou você está com Chris ou não está]”. “Rematado [completo] idiota, um pirado, um narcisista que morreu de arrogância e estupidez — e que não merecia a atenção que a imprensa lhe dera” é um dos comentários de um leitor da revista. Outros comentários seguem: “Para mim, Alex é um maluco”, “O autor [Jon Krakauer] descreve um homem que deu de presente uma pequena fortuna, renunciou a uma família amorosa, abandonou carro, relógio e mapa e queimou o resto de seu dinheiro antes de enfiar no deserto”, “Pessoalmente não vejo nada de positivo no estilo de vida ou doutrina da natureza de Chris McCandless”, “Entrar numa região selvagem mal preparado de propósito e sobreviver a uma experiência tão radical não faz de você um ser humano melhor, faz de você um sortudo”, “Por que alguém que pretendia ‘viver da terra durante alguns meses’ esqueceu a primeira regra dos escoteiros: esteja preparado? Por que um filho causaria a seus pais e a sua família uma dor tão permanente e excruciante?”, “Krakauer é um biruta se não acha que Chris ‘Alexander Supertramp’ McCandless era um biruta”, “McCandless já tinha passado da beira do abismo e só o que aconteceu foi que se esborrachou lá embaixo no Alasca”. Além desses comentários, um que Krakauer se surpreende mais é diante de uma carta longa e densa que veio de uma pequenina aldeia próxima ao rio Kobuk, justamente na região do Alasca. Por ser longa, duas partes bastam para refletirmos. Diz Ambler, autor da carta: “Mesma história: jovens idealistas, cheios de energia, que se superestimaram, subestimaram a região e acabaram em dificuldade”, “Sua ignorância, que podia ter sido curada com uma bússola do USGS e um manual de escoteiro, é que me mata”.

Diante desses comentários é triste, porém fatídico que a morte para Chris foi o mais viável fim da sua trajetória. Talvez se Chris realmente tivesse voltado à sociedade iria velar em vida sua sagacidade. A história nos convida a fazer analogias de Chris com algumas pessoas que sempre perpassaram ou ainda enfrentam, mesmo depois de falecerem, o ceticismo que as cercam. Gandhi falou, no auge de confrontos de ideias na Índia, que não eram as palavras deles, mas que era sua vida a mais importante mensagem. Jesus, humilde, foi crucificado e julgado pelo povo que mais cuidou e dedicou a vida para evangelizar.

O fato de que o maior criticismo vir justamente da região que Chris explorou, mostra que julgamos a superfície e não o que está em baixo dela. Olhamos para o mundo na base dos preconceitos porque não vemos como ele é, mas o olhamo como queremos que ele seja ou esperamos que seja. É necessário entender que a verdade só é possível de ser revelada quando desgarramos da atração da ótica da superfície. A superfície é tão real quanto o que está abaixo dela. Uma revela a outra. Nenhuma existe sem a outra e tampouco uma é superior a outra.

A questão não é a crítica ou a falta dela, mas justamente a busca constante que fazemos para distanciar de nós mesmos. Nietzsche já dizia em seu livro “A Genealogia da Moral” que “nós, conhecedores, desconhecemos a nós mesmos”. Curioso é o julgamento sobre a vida de McCandless e no filme seu pai afirmar “tudo tem que ser complicado” ao passo que não compreende seu filho e quer te dar um carro novo, baseado na desculpa de ser melhor para ele. Não, nem tudo deve ser complicado. A ligação de duas frases do próprio McCandless pode resumir o que ele sentiria caso lesse ou ouvisse os comentários sobre sua jornada. Ambas são do filme. A primeira ele está dialogando com Wayne e diz após repetir sete vezes a palavra “sociedade” como se estivesse descarregando todo o fardo que acumulou no decorrer de sua vida.

“Eu não entendo porque todas as pessoas são tão ruins umas com as outras. Não faz sentido para mim julgamento, controle, tudo isso, todo o sistema. […] Hipócritas!”.

A segunda, ao ser questionado se os seus pais estariam preocupados por sua ausência, responde parafraseando Thoreau

“Mais do que amor, do que dinheiro, do que fé, do que fama, do que justiça, dê-me a verdade”.

Os livros que foram encontrados com Chris possuíam anotações ou partes que estavam grifadas e no trecho que ele tinha dito essa frase, a palavra “verdade” estava grafada a mão, em grandes letras de formas por ele.

A amnésia aparente de quem mais critica é facilmente refutada por fatos que estão corriqueiramente ligados aos anos joviais de uma vida de uma pessoa. Como diz Jon “temos em nossa cultura, por meio da história, o fato de fazermos tudo que queremos, de apostar. Dirigir rápido, beber até cair são exemplos de coisas que fazemos que nos colocamos em risco”. O fato de “que se morre com idade mais avançada deu aos jovens a ideia que são imortais e que morrer é coisa de velhos”.

Liderado por vários livros de autores conhecidos como Liev Tolstoi, Jack London e Henry Thoreau, Chris viu sua vida ser ordenada moralmente e eticamente pelos livros deles mais do que propriamente da sua criação em família. Desenvolveu a noção falsa, um conhecimento imediato, intuitivo de uma ideia de ídolo como um falso deus e os idolatrou. A imagem dos autores favoritos, no entanto, não o afastou de quem ele era em essência, pelo contrário, o revelou. A troca de nome, de identidade, atesta o fim do Chris McCandless socialmente construído principalmente por sua família para nascer e amadurecer o Alexander Supertramp. Chris ou Alex não era hipócrita. Qualquer um deles sabia que não se julga a vida por seu final ou por sua duração, mas pelo seu contexto. De acordo com Jon, “Chris julgava os artistas e amigos próximos pelo trabalho deles, não pela vida que levavam, muito embora pecasse em não estender essa tolerância aos seus pais”. “Jack London era um bêbado costumaz; Tolstoi, apesar de sua famosa defesa do celibato, fora um entusiasmado aventureiro sexual quando jovem e teve pelo menos treze filhos, alguns dos quais concebidos na mesma época em que o censório conde trovejava em letras impressas contra os males do sexo”.

Julga-se mais o Alex que o Chris McCandless talvez porque todos somos em essência e não queremos admitir ou silenciamos um Supertramp em nós. A sociedade como um sistema, como mesmo cita Chris, faz com que sejamos cordados. As crianças ganham a característica de sinceros quando falam a verdade que Thoreau comenta em seus livros, e aparentemente, sinceridade está fadada à idade e ao passo que os tempos passam, ela vai diluindo e surgindo regras para silenciá-la.

Eddie Vedder, responsável pela trilha sonora filme, captou muito bem e bem melhor que muitos a peregrinação de Chris e transformou seus pensamentos mais eloquentes em arte, em música. “Society” é a música que é reproduzida enquanto assistirmos Alex vivendo uma vida simples no Alasca. “É um mistério para mim / Nós temos uma ambição com a qual concordamos / E você pensa que você tem que querer mais do que precisa / Até você ter tudo, você não estará livre / Sociedade, você é uma criação louca”. Todos concordamos com os ideais de Chris e sobretudo de Alex. Provavelmente precisamos colocar mais realidade na ideia que no objeto. Talvez pela simples interpretação de uma de suas frases poderemos encontrar vários exemplos diante de nós, ou até mesmo várias situações que estamos dessa forma.

“Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro. A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente sol”

Chris McCandless.

Caso ainda não seja suficiente, Vedder ilustra em “Guaranted”, “De joelhos dobrados não há como ser livre / Levantando um copo vazio, eu pergunto silenciosamente / Se todos meus destinos aceitarão aquele que eu sou /Para que eu possa respirar”.

A busca pela liberdade implica em sermos responsáveis diante das escolhas. A trajetória de Chris nos mostra dois temas intrínsecos, a solitude-solidão. O porco-espinho, como observa Arthur Schopenhauer, no frio decide ficar com outros da sua espécie para não morrer. Ao se agrupar sofre também, já que os seus espinhos ferem outros e os espinhos dos outros o ferem. “O incômodo nos afasta. Ficamos isolados novamente. O frio aumenta, e tentamos voltar ao convívio com o mesmo resultado. Solitários, somos livres, porém passamos frio. A dois ou em grupo as diferenças causam dores. Teríamos de achar uma distância segura, que trouxesse o calor necessário e evitasse o ataque”.

Há muito o que se questionar sobre o isolamento de Chris que culminou inclusive com sua morte. Alex Supertramp revela que “talvez não seja a solidão que nos cause horror, mas a falta de controle sobre estar só ou acompanhado”. Ao longo majoritariamente do filme Chris faz várias amizades, mas não muda de individualista para egoísta, não utiliza as pessoas como barganha. Todas as pessoas que tiveram contato com ele o lembram como uma pessoa inteligente e que de fato mudou a vida deles quando fazem um exercício de olhar a vida com outros olhos. Alex gostava das pessoas, mas adorava ter um tempo para si. A solidão recarregava a si mesmo. Não existia angústia em estar só, mas sim quando estava condicionado a ficar com alguém que o limitasse. Chris como um lobo, tinha sempre ao seu lado a metáfora em ser errante. Precisava que a alcateia, a sociedade, lhe fornecesse proteção e companhia, mas não queria seguir o ritmo da marcha deles. Ao sair uma noite e ver as pessoas e até se imaginar sendo uma delas em um ambiente de negócios percebeu que não pertencia mais a aquele nicho. Era necessário, como fez ironicamente, uivar feliz e solitário para a Lua no Magic Bus [Ônibus Mágico].

O isolamento produtivo, aqui denominado de solitude, é algo bem raro no mundo contemporâneo. Quem sabe se os porcos-espinho tivessem acesso às redes sociais teriam a possibilidade em disfarçar o sofrimento deles. Somos metaforicamente esses porcos-espinhos com a diferença que estamos “profundamente conectados, mas vivemos massivamente isolados”. Os sorrisos em fotos com filtros em redes sociais não mostram os números alarmantes de casos crescentes de casos de depressão e de consumo de medicamentos para trata-la, ou a simples solidão renegada e a chance de transformá-la em solitude. Mas o errado com certeza, na maioria das pessoas, é se isolar no Alasca, principalmente quando se leva livros para ocupar e florir a mente. O professor Leandro Karnal pontua magnificamente o poder da leitura silenciosa durante a solidão.

Isolado das pessoas e em contato comigo, refletindo ou lendo, eu me sinto acompanhando sem estar com ninguém. Assim, mesmo estando sem ninguém, a solidão não pesa nem se transforma em angústia. Ela me leva um conhecimento maior de mim; ou a uma chance de pensar; ou ao prazer de ler; ou ao deleite de uma paisagem em silêncio. Estou sem mais ninguém e me sinto bem, preenchido, pleno, até. Sempre acreditei que uma pessoa deveria ter até mesmo a necessidade de isolamento periódicos, quase como uma vacina contra a algaravia do mundo”.

Leandro Karnal

A solidão constante de Chris ou até mesmo a repulsa em criar laços mais afins com as pessoas levam o surgimento do pensamento errado de que ele era doido, ou estava desenvolvendo a loucura. É até bom relembrar que os hospícios foram, não somente a criação de um ambiente para a internação de pessoas “diferentes” das sociedades, mas para atestar “aos normais” que eles são “normais”. Ora, se não estou lá, não sou doido, inferimos. A fala sozinha dentro do ônibus, seguido de um grito por perguntar se tem alguém por perto sustenta a ideia de que é no isolamento que ele “encontra a própria identidade, sem enlouquecer”.

A morte de Chris muito controversa, mas sobretudo bem determinante para afirmar que seria um ser tolo e estúpido é outro ponto importante para ser desconstruído. Sean Penn em uma entrevista afirmou que Chris “died alive [morreu vivo]”. A vida na morte parece uma relação impossível, contudo como ele mesmo afirma Chris “died, but also, I think, succeed enormously on spiritual journey he was on [morreu, mas na opinião dele, teve um enorme sucesso na jornada espiritual que estava percorrendo]”. Julgamos a morte de Chris, pois ela é o ponto final de qualquer história. E ele sendo um peregrino encontrou a felicidade na dor da peregrinação.

A solidão-solitude é uma gangorra que somente você tem o controle. Não há como ficar nos dois lugares ao mesmo tempo, porém é possível controla-la para que você suba ou desça conforme queira. Se ao procurar sempre “ganhar”, ficando superior, estará na verdade se enganando. Não há ninguém que está competindo com você. Chris experimentou a solitude em suas várias camadas, mas demorou ao realizar que só ela poderia dar as respostas que procurava. “O tempo é um piloto louco / Que gosta de acelerar / Não vê placas nem sinais / E sempre vai avançar” diz Bráulio Bessa em sua poesia que se adequa a sua dor. As estações do ano passaram e mudaram como o rio se apresentava. O gelo derreteu e Chris ainda estava no deleite da solitude. Quando decidiu voltar, sentiu algo que nunca tinha sentido em sua jornada, medo. Assustado, não pensou, e agiu como qualquer um faria, voltando para o lugar que lhe provia condições de sobrevivência. Existia outras possibilidades para que sobrevivesse, mas o futuro aparentemente já estava construído. Sem comida de origem animal suficiente para se alimentar e com seu conhecimento sobre plantas comestíveis sobreviveu por algum período totalizando mais de 100 dias, até que fraco escreve em um dos seus livros a frase mais marcante do filme: “Happiness is only real when shared [Felicidade é apenas real quando compartilhada]” e prepara a sua morte. Jon acredita que a frase é mais “uma prova de que o longo afastamento de McCandless o havia mudado de forma significativa. Ela pode ser interpretada no sentido de que ele estivesse pronto, talvez, para abrir um pouco a armadura que usava em torno do seu coração, que após retomar à civilização pretendesse abandonar a vida de andarilho solitário, parar de fugir tanto da intimidade e tornasse um membro da comunidade humana”.

Assim como “Jesus que pediu perdão aos presentes, demonstrando seu amor incondicional; apresentou Maria como mãe de João, para que ele cuidasse dela; respondeu ao bom ladrão que ele estaria consigo no Paraíso ainda naquele fatídico dia”, Chris aprendeu duramente que perdoar é amar. O filme é categórico ao utilizar a fotografia em cenas que mostram ele olhando para céu e principalmente para a luz e imaginando chegando em casa como se nada tivesse ocorrido.

Viver é evoluir / E ao deixar de existir / Até morrer é mudar”. Alex mais do que Chris nos coloca nesse lugar de construção de pensamento que chegaremos à conclusão se teremos condições de responder à pergunta ao final da vida: agora que estou morto, será que vivi? “Viva antes de morrer” escrita no Magic Bus [Ônibus Mágico] é um soco no estômago para rememorar a ideia de estarmos sobrevivendo ao invés de viver, de se permitir experimentar estar vivo, de se isolar, de formar amizades, de ser um ser humano em essência. Alex Supertramp não é um doido, doente mental, nem um herói. É um ser humano, um recorte da sociedade.

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